Duo brasileiro trabalha desejo e obsessão em uma faixa de rock/metal alternativo que combina peso, atmosfera sombria e um refrão de forte retenção

“Sweet Desire” ajuda a consolidar a Delusional como um projeto atento à construção de identidade, algo que nem sempre aparece com clareza em lançamentos de bandas novas. Formado por Rob Ruthes e Will Marquardt, o duo brasileiro desenvolve uma música que aposta na convivência entre peso, clima e apelo melódico, sem perder de vista uma estética mais escura e introspectiva.
Desde a introdução, a faixa demonstra cuidado de produção. Os elementos ocupam seus espaços com equilíbrio, o que permite que a densidade sonora apareça sem comprometer a definição do arranjo. Há peso, mas também espaço entre as camadas, e isso ajuda a sustentar a atmosfera da música sem torná-la excessivamente carregada.
No instrumental, a guitarra tem presença marcante, mas trabalha em favor do conjunto, e não como elemento isolado. O resultado é uma base que alterna intensidade e contenção com naturalidade, reforçando a ideia de uma canção construída sobre tensão crescente. É esse jogo entre força e controle que dá sustentação ao lado mais sombrio de “Sweet Desire”.
A voz é um dos pontos que mais chama atenção. Há potência, mas também precisão, o que evita que a interpretação caia no excesso. Em alguns trechos mais agudos, a referência à escola emocional do metal melódico brasileiro aparece de forma evidente, sem que a música dependa disso para se afirmar. O uso de guturais, por sua vez, adiciona contraste e amplia a dramaticidade da faixa.
O refrão surge como um dos momentos mais fortes da composição. Ele é direto, memorável e entra com fluidez, sem parecer forçado. Essa combinação entre impacto e naturalidade costuma ser difícil de alcançar, especialmente em um formato que busca equilibrar acessibilidade e intensidade. Aqui, o acerto está justamente em não exagerar na dose.
Na letra, “Sweet Desire” trabalha a fronteira entre atração e obsessão, transformando desejo em algo menos romântico e mais inquietante. A imagem de um vínculo que se aproxima do colapso emocional reforça a proposta da faixa, que trata o afeto como força de consumo e descontrole. Isso ajuda a amarrar melhor a relação entre conceito e sonoridade.
Com influências que dialogam com alternative rock, metal moderno e nomes como Deftones, Bring Me the Horizon e Avenged Sevenfold, a Delusional não soa como mera soma de referências. O que se percebe em “Sweet Desire” é uma tentativa de filtrar essas influências em uma linguagem própria, algo que já aparece como ponto de força do projeto. A capa com participação da modelo Lilou Ciano também reforça essa proposta estética, alinhando imagem e som de maneira coerente.
No conjunto, “Sweet Desire” mostra um duo que entende bem a importância de construir assinatura sem abrir mão de impacto imediato. É uma faixa que combina atmosfera, peso e apelo melódico com segurança, e que aponta para um caminho promissor dentro do rock/metal alternativo brasileiro. A sensação final é de um trabalho que já apresenta personalidade suficiente para se destacar, sem precisar recorrer a excessos para chamar atenção.


