Faixa do EP “Five Flowers” equilibra dissonância e refrão cantável, enquanto clipe ao vivo capta a energia da cena alternativa de Queensland

A banda australiana Same Pains construiu, em quase três anos de existência, uma reputação de intensidade quase física dentro da cena de música pesada de Queensland. “Shoulder”, faixa que integra o EP “Five Flowers”, confirma essa fama, mas também revela uma faceta menos evidente do grupo: a disposição de abrir espaço para melodia em meio ao caos que costuma definir seu som.
Diferentemente de “Terminal” e “Death’s Adore”, os singles anteriores do EP, mais voltados à agressão direta, “Shoulder” trabalha em camadas. Os versos trazem acordes dissonantes e feedback que remetem a referências como Norma Jean e Every Time I Die, mantendo a aspereza que já era marca registrada da banda. O refrão, no entanto, muda de registro e aponta para uma vertente mais melódica, com ecos de Underoath e Killswitch Engage. Essa alternância entre ruído e respiro é o que dá à música sua sensação de profundidade: não se trata apenas de um ataque contínuo de riffs pesados, mas de uma composição que sabe dosar tensão e alívio, ainda que a transição entre esses dois polos por vezes pareça mais abrupta do que orgânica, como se as duas metades da música ainda estivessem se acomodando uma à outra.
Vocalmente, “Shoulder” mantém o tom de urgência que o metalcore exige, com uma entrega que soa pessoal e angustiada, sem recorrer a artifícios óbvios para comunicar sofrimento. É esse caráter mais confessional, somado à intensidade instrumental, que sustenta a identidade da faixa e a diferencia de exercícios de estilo dentro do gênero. Ainda assim, é na comparação com nomes mais consolidados do breakdown melódico que fica claro o quanto a banda está em processo de amadurecimento: as influências são citadas com honestidade, mas a fusão entre elas ainda tem espaço para ganhar mais fluidez e personalidade própria.
O videoclipe que acompanha o lançamento, produzido por Colin Jeffs, da Ten of Swords Media, reforça o caráter coletivo do projeto. A banda voou Jeffs especialmente para o registro e reuniu cerca de cem amigos e familiares em um local mantido em segredo até um dia antes da gravação, uma mistura de pessoas que conheciam a banda há poucos meses e outras que acompanham os integrantes desde a infância. Gravado em formato de show ao vivo, o vídeo capta a relação entre banda e plateia de forma crua, sem a artificialidade típica de produções mais controladas. A estética frenética da edição acompanha o andamento da música e ajuda a traduzir visualmente a experiência de um show da Same Pains, com aquele tipo de energia que empurra o espectador para dentro do mosh pit mesmo à distância da tela.
Formada em meados de 2023, a Same Pains já acumulou uma indicação ao QLD Music Award e presença em festivais, além de uma agenda de shows consistente pela costa leste australiana. Segundo o guitarrista Ben Burrows, “Five Flowers” representa um salto em relação ao trabalho anterior, “Closure, a Aggregate” — não tanto por uma mudança radical de sonoridade, mas pelo que a banda aprendeu sobre si mesma ao longo do processo, incluindo experiências de vida difíceis compartilhadas entre os integrantes e que ajudaram a moldar o disco. “Shoulder” ilustra bem esse momento de transição: uma banda que ainda fala a língua do ruído e da dor, mas que começa a testar até onde pode levar a melodia sem perder a aspereza que a define.


