Faixa do álbum de estreia autointitulado alterna compassos irregulares, passagens melódicas e peso distorcido para narrar paranoia, dúvida e busca de identidade

Existe um tipo de música progressiva que se contenta em exibir técnica e outro que a usa para contar algo. “Scatterbrain”, da banda No-mad, pertence claramente ao segundo grupo. A faixa integra o disco de estreia do grupo, que leva o mesmo nome da banda e se apresenta como uma jornada de cerca de 40 minutos por relações enganosas, conflitos internos, paranoia, um vislumbre de otimismo e a procura pelo eu verdadeiro. O título da música, que remete a uma mente dispersa e acelerada, funciona como chave de leitura para o que se ouve.
O ponto de partida da banda é o metal progressivo com afinidade pelo alternativo, e as referências declaradas ajudam a situar o território: Dream Theater, Opeth, Tool, In Flames e Tremonti, com ecos que o ouvinte atento também associa ao Pain of Salvation. A comparação com esses nomes, porém, não se resume a decalque. O que se destaca é a maneira como as mudanças de métrica e a movimentação da seção rítmica deixam de soar como exercício de virtuosismo e passam a acompanhar o desconforto emocional descrito pela letra, com a instabilidade do compasso espelhando a instabilidade da cabeça.
Esse efeito se sustenta na alternância entre passagens melódicas e blocos de peso esmagador. A banda trabalha com afinações diferentes, harmonias que vão do aberto e envolvente ao dissonante, e uma pegada de groove que impede a complexidade de virar frieza. Nos momentos de maior densidade, a distorção entra como descarga e não como mero recurso de agressividade, e o contraste com os trechos mais suaves dá à faixa um desenho dinâmico que mantém a atenção ao longo da audição. É um equilíbrio difícil de acertar em música com tantos deslocamentos, e a execução, firme e coesa, mostra um grupo que ensaiou e arranjou com cuidado.
Os vocais merecem menção à parte. Com aspereza e convicção, conduzem o ouvinte pela tensão psicológica da canção sem perder a intenção interpretativa, algo que em metal progressivo nem sempre acontece, já que a voz muitas vezes fica subordinada à engenharia dos instrumentos. Aqui ela é parte da narrativa, e é ela quem dá rosto ao conflito que a parte instrumental desenha em contornos mais abstratos.
A trajetória da banda também ajuda a entender o resultado. O projeto nasceu a partir de uma competição de bandas, por iniciativa de Ofer Tamir, que percebeu potencial no material e decidiu dar o passo seguinte, reformulando o grupo com novos músicos e reorganizando as composições para gravá-las e levá-las ao palco. Esse histórico de reconstrução talvez explique a sensação de identidade já relativamente definida para um álbum de estreia, mesmo quando as influências são nítidas.
Como todo debut ambicioso, o desafio daqui para frente é consolidar uma assinatura própria diante de um gênero com tradição pesada e público exigente. “Scatterbrain” indica que o No-mad tem repertório técnico, ideias de arranjo e um discurso emocional coerente para disputar esse espaço. Para quem acompanha o metal progressivo contemporâneo e valoriza complexidade com propósito, é uma faixa que merece a audição atenta, e o álbum inteiro surge como o próximo passo natural.


