Mais de duas décadas após despontar no hardcore melódico nacional, a banda paulista regressa com um registo maduro que transforma o colapso corporativo e a hiperconexão em combustível sonoro.

O amadurecimento de uma banda de hardcore melódico costuma enfrentar um dilema estrutural: como preservar a urgência e a velocidade características do género sem soar anacrónico ou excessivamente nostálgico? Com mais de vinte anos de estrada e uma discografia umbilicalmente ligada ao circuito independente dos anos 2000, os paulistas do Aditive parecem ter encontrado uma resposta sólida em seu mais recente álbum de estúdio, Algoritmo, lançado pelo selo Lab Sonoro.
Em vez de emular as temáticas juvenis que marcaram o início da carreira, o trio, hoje composto por Sandro (guitarra e voz), Tiago Hóspede (guitarra) e Renato Prado (baixo), optou por alinhar a crueza dos arranjos a uma lírica marcadamente contemporânea. Algoritmo não é um disco de lamento; é uma crónica analítica sobre o ruído mental provocado pela dependência digital e pelas pressões do quotidiano moderno.
O eixo conceptual do trabalho manifesta-se de forma explícita na faixa de trabalho, “Algo Além do Medo”. A canção evita os clichés do niilismo ao lançar um olhar incisivo sobre a rotina corporativa, o burnout e a mercantilização do tempo. Musicalmente, a faixa sustenta-se nas fundações clássicas do estilo, guitarras velozes, linhas melódicas marcantes e uma cozinha rítmica precisa, mas a entrega vocal entrega uma sobriedade que apenas o distanciamento geracional permite ter. É um apelo à desaceleração embrulhado em alta voltagem sonora.
O álbum também chama a atenção pela capacidade de expandir as fronteiras estéticas do grupo através de colaborações pontuais, mas cirúrgicas. A faixa de abertura, “Dilema”, traz a participação de Sandrão RZO, um dos pilares do rap nacional. A intersecção entre as métricas do hip-hop e o peso das guitarras do hardcore confere uma textura urbana e cinzenta à faixa, estabelecendo o tom do disco de forma assertiva. Mais adiante, “Entre Haters e Tiktokers” reforça os laços com a própria cena ao convidar Victor Franciscon (Garage Fuzz/Dharma Numb) para dividir os vocais, resultando numa composição que analisa criticamente a validação artificial e a volatilidade das redes sociais.
Ao longo das suas oito faixas, Algoritmo demonstra que o Aditive compreende o seu lugar no panorama atual. O grupo evita o pastiche do “revival” emocional para entregar um álbum tecnicamente polido, cuja produção, assinada pelo próprio guitarrista Tiago Hóspede, equilibra o peso moderno com a crueza necessária ao estilo. No atual cenário da música de guitarras no Brasil, o registo funciona como um documento pertinente sobre o esgotamento da nossa era, provando que o hardcore ainda possui ferramentas eficazes para traduzir as angústias do agora.


