Aleph Naught and the Null Set revisita o rock progressivo clássico com humor, melancolia e ambição em três faixas

Entre Zappa, Yes e o prog moderno, o projeto de estúdio mostra versatilidade em “How Do You Dance on Uranus”, “Where Do You Start the Story of Love” e “The Lobster Knows”

Aleph Naught and the Null Set é obra de um único músico multi-instrumentista, que escreve, toca e produz a partir de seu próprio estúdio. Em três faixas recentes, o projeto percorre caminhos distintos dentro do rock progressivo: o humor absurdo herdado de Frank Zappa, a introspecção melódica que remete ao Yes e ao Riverside e a arquitetura instrumental de levada jazzística. O que une as três é a coerência com que as ideias se encadeiam e a ambição de quem conhece a fundo o repertório clássico do gênero.

A trajetória do artista ajuda a explicar esse resultado. Ele começou a tocar aos dez anos, depois que a família montou em casa um órgão de teatro Schober a partir de um kit. Passou por bandas durante e depois da faculdade, muitas vezes como compositor e líder informal, e carrega como referências Genesis, Yes, Nektar, Pink Floyd e Gentle Giant, banda que chegou a ver em sua última turnê. Mais recentemente, trocou teclados e racks de equipamento por um Mac Pro com Logic e uma coleção de plugins, passando a produzir de maneira inteiramente digital. As três faixas mostram que a estética do prog setentista pode ser reconstruída com ferramentas atuais, desde que haja repertório e disciplina de composição.

“How Do You Dance on Uranus”: o espírito de Zappa como ponto de partida

O título já avisa que não se trata de uma canção convencional. A faixa parte de uma pergunta com humor deliberado e a desenvolve como uma peça que se permite desvios, mudanças de cenário e uma atmosfera de ficção científica. A origem é curiosa: depois de a esposa comparar sua música a “Hot Rats”, álbum de Zappa lançado em 1969, o autor voltou a ouvir o próprio material e mergulhou em livros e na vasta discografia do compositor americano. A influência aparece sobretudo na letra, no humor inquieto e no gosto pelo absurdo. Não há imitação: o que fica é a postura de tratar a composição como território aberto à experimentação.

Musicalmente, a canção evolui sem se acomodar em uma única fórmula. Há momentos que evocam trilhas de jogos eletrônicos de aventura, outros que lembram temas de séries ou a amplitude de uma partitura de cinema. Essa sensação cinematográfica é o principal trunfo da faixa, que dá ao ouvinte a impressão de percorrer capítulos, e não apenas estrofes e refrões. O arranjo é detalhado e bem executado, e os vocais, principais e de apoio, conduzem a narrativa sem disputar espaço com a densidade instrumental.

“Where Do You Start the Story of Love”: uma pergunta nascida diante de um filme

A segunda faixa surgiu enquanto o autor assistia ao início de Hamnet. Ele se perguntou por onde o filme começaria a contar a história: pelo nascimento de Shakespeare, pelo encontro com a companheira, pela chegada do filho? A dúvida se ampliou para uma questão mais geral sobre onde começa uma narrativa de amor, e o restante da música cresceu de maneira orgânica a partir dela.

Aqui os ecos do Yes são evidentes, na atenção à melodia, no arranjo em camadas e em uma certa nobreza de timbre. Ao mesmo tempo, uma melancolia contemporânea atravessa a composição e a aproxima do prog moderno de bandas como o Riverside. A bateria é um dos pontos altos: inventiva e cheia de nuances, conduz a música e sustenta as mudanças de clima com fluidez, evitando que as transições soem como emendas. O solo de guitarra fecha o quadro com contenção expressiva, apostando na emoção em vez do virtuosismo. Como ressalva, a ambição conceitual da faixa poderia ganhar ainda mais relevo se futuras gravações explorassem outros desdobramentos da mesma ideia.

“The Lobster Knows”: o prog instrumental como arquitetura

A terceira faixa é inteiramente instrumental e também carrega humor no título, inspirado no hábito das lagostas de disputarem território lançando urina umas nas outras. O lado lúdico, porém, convive com uma execução séria. O ponto mais forte está na seção rítmica: baixo e bateria constroem uma pulsação de sotaque jazzístico, com swing contido e acentos bem posicionados, sem a rigidez mecânica comum em produções de estúdio caseiro. Essa elasticidade permite que a música mude de clima sem soar como colagem.

Em vez de repetir um tema até o desgaste, o arranjo desdobra ideias, retoma motivos em outras roupagens e distribui teclados e camadas de modo a manter o interesse. As transições nascem do material anterior, e essa lógica de encadeamento é justamente o que separa o rock progressivo de interesse duradouro do mero catálogo de compassos irregulares. Se há um caminho a explorar, talvez seja ampliar os contrastes dinâmicos e dar mais espaço aos momentos de respiro entre as passagens densas.

Três faces de um mesmo vocabulário

Somadas, as três faixas mostram um artista que usa o cânone do prog menos como citação e mais como vocabulário. Humor, introspecção e rigor formal convivem sem que o projeto perca identidade. Para quem aprecia o gênero em sua vertente mais aventureira, Aleph Naught and the Null Set é uma viagem que vale o embarque.

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