Projeto colaborativo idealizado pelo guitarrista Rodrigo Corrêa aposta em rock pesado de raiz hendrixiana e traz o vocalista do Cachorro Grande para uma faixa de forte apelo retrô

O Electrograma é, antes de tudo, um experimento de logística musical. Nascido da vontade do guitarrista Rodrigo Corrêa de conectar artistas do Brasil e de Portugal através da tecnologia digital, o projeto funciona como um coletivo aberto, reunindo músicos de bandas e estilos diferentes em gravações feitas em estúdios dos dois países. Essa lógica de intercâmbio, mais comum em cenas eletrônicas ou experimentais do que no rock tradicional, é o que dá ao Electrograma sua identidade: não se trata de uma banda fixa, mas de uma rede de colaborações que se reconfigura a cada lançamento, valorizando a produção independente e a liberdade criativa de quem participa.
“Inferno na Terra é Eterno” é um bom retrato dessa proposta. A faixa investe em um rock pesado de raiz hendrixiana, com groove denso e uma camada psicodélica que remete diretamente aos anos 70, sem abrir mão de uma pegada mais robusta que também dialoga com o hard rock dos anos 80. A guitarra ocupa o centro da composição, como seria de se esperar num projeto capitaneado por um guitarrista, mas o que sustenta a música em pé é o entrosamento da banda reunida para a gravação: Gabriel Guedes e Erick Endres nas guitarras, Pedro Pelotas e Bruno Neves em teclados e bateria. É uma formação de peso, e isso se percebe na coesão do arranjo, que evita o vício comum de faixas instrumentalmente carregadas de perder o rumo entre solos e camadas.
O grande trunfo da faixa, no entanto, está na voz de Beto Bruno, vocalista do Cachorro Grande, banda gaúcha com décadas de estrada e reputação consolidada no rock brasileiro. Sua presença não é um mero convite estelar: ela imprime personalidade e atitude à música, aproximando “Inferno na Terra é Eterno” de um vocabulário sonoro que remete, em vários momentos, ao próprio trabalho do Cachorro Grande. Essa aproximação não diminui a faixa nem a torna derivativa; pelo contrário, funciona como uma assinatura reconhecível dentro de um projeto que, por natureza, é plural e sem rosto fixo. É a voz de Beto Bruno que costura o material instrumental e dá à canção uma sensação de unidade, algo que projetos colaborativos frequentemente têm dificuldade de alcançar.
Do ponto de vista técnico, a produção é um dos pontos altos da faixa. O som é encorpado, sem perder definição entre os instrumentos, e a mixagem consegue equilibrar a densidade das guitarras com o protagonismo vocal, resultado provavelmente favorecido pelo processo de gravação em estúdios distintos, que exige atenção redobrada na etapa de finalização. O resultado é uma música com groove sólido e atitude clássica de rock, que não tenta reinventar o gênero, mas que o executa com competência e personalidade.
Como parte de um projeto que já prepara novos lançamentos e pretende ampliar sua rede para incluir artistas de outras nacionalidades, “Inferno na Terra é Eterno” funciona como um cartão de visitas eficiente. Mostra que a fórmula de conectar músicos à distância pode gerar resultados coesos e não apenas experimentos técnicos, e sugere que o Electrograma tem potencial para se tornar um espaço relevante de diálogo entre cenas de rock de diferentes países, desde que mantenha o cuidado na escolha de parceiros vocais e instrumentistas capazes de dar liga a cada nova combinação.


