Evolema encara o abuso de substâncias com violão e peso post-grunge em “El Fin”

Projeto chileno liderado por Rolo Ulloa retorna com uma canção em espanhol que mistura acústico, memória do rock do início dos anos 2000 e um videoclipe de temática pesada

O Evolema, projeto chileno comandado por Rolo Ulloa, escolhe um caminho pouco óbvio para falar de um tema difícil. Em “El Fin”, cantada integralmente em espanhol, a banda parte de uma base acústica de contornos clássicos e a conduz com um andamento contido, sem a pressa de buscar o refrão mais ruidoso. O resultado é uma canção que prefere construir tensão pela atmosfera a empurrá-la pelo volume.

Essa escolha dialoga diretamente com a escola do post-grunge e do rock alternativo que dominou as rádios no começo dos anos 2000. Quem cresceu ouvindo Creed, 3 Doors Down ou Hoobastank vai reconhecer o desenho melódico de voz grave e emotiva, a ênfase na sinceridade da interpretação e a preferência por harmonias diretas, pensadas para serem cantadas junto. O mérito está em não soar como cópia de época: o violão em primeiro plano e a produção limpa dão à faixa um ar mais íntimo do que nostálgico.

A trajetória do grupo ajuda a entender essa postura. O Evolema tem origens nos anos 2000, mas só reaparece em 2025, numa fase que a própria banda descreve como de maturidade musical e de necessidade de dar forma a experiências e reflexões pessoais. O single de estreia dessa nova etapa, “Quiero Ascender”, já apontava para uma identidade de rock emocional e franco, e “El Fin” parece aprofundar esse caminho, com letra e arranjo a serviço de uma visão mais intimista do mundo.

O videoclipe, porém, é o que amplia o alcance da música. Gravado na histórica casona La Casa Revueltas, o filme acompanha um homem preso ao consumo de drogas, cuja percepção da realidade vai se misturando a delírios paranoicos até chegar a uma situação limite que o obriga a questionar tudo o que vive. O cenário antigo, de atmosfera densa, funciona como extensão da angústia do personagem, e a direção opta por sensibilidade e força visual em vez de moralismo, o que é raro em abordagens do tema.

O final em aberto merece destaque. Ao não oferecer redenção nem condenação fáceis, o vídeo convida o espectador a pensar no ciclo do consumo e em seus efeitos sobre a vida pessoal e familiar, assunto que o rock já tratou muitas vezes, mas nem sempre com essa contenção. Há aqui uma coerência entre o tom sereno da canção e a gravidade da narrativa: o contraste entre uma música aparentemente calma e uma história de desagregação torna a mensagem mais incômoda, e por isso mais eficaz.

Como ponto de atenção, a proximidade com as referências do post-grunge pode ser um desafio para o grupo se destacar num panorama em que esse som é bastante conhecido. A solução provável passa por explorar ainda mais o que já diferencia o projeto: o canto em espanhol, a abordagem direta de temas sociais e o cuidado audiovisual. Com esses elementos, o Evolema mostra que o recomeço, depois de tantos anos, pode ter algo próprio a dizer.

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