Quarteto de Halmstad, na Suécia, mostra em faixa do álbum “Eyecontact” como quebras de ritmo e boas linhas de guitarra podem conviver com o apelo do pop

Há bandas que chegam ao primeiro disco cheio depois de uma década de ensaio. O Eyescream, de Halmstad, na costa oeste da Suécia, precisou de bem mais tempo. Formado em 1995 por músicos egressos de bandas de covers, o grupo passou os anos seguintes acumulando demos, shows locais e canções, até lançar “The Other Side Of Us”, em 2019. “Teenage Tinnitus”, faixa do novo álbum “Eyecontact”, é o resultado de uma trajetória longa e sem pressa, e isso se percebe na segurança com que a música se organiza.
A canção parte de uma ideia que o próprio histórico da banda ajuda a explicar: escrever sem se prender a um estilo. Rock progressivo, metal e pop independente aparecem como referências declaradas, e “Teenage Tinnitus” circula entre essas margens sem exibir costuras. A guitarra de Peter Jöeäär é o elemento que mais chama atenção. Ela constrói frases melódicas em vez de apenas preencher espaço, e conduz a música por mudanças de andamento que soam planejadas, não decorativas. Em alguns momentos, o caráter dessas passagens remete ao prog clássico dos anos 1970, a escola de nomes como o Yes, mas sem a pompa que costuma acompanhar esse repertório.
As quebras rítmicas são o segundo trunfo. Em vez de usá-las como demonstração de técnica, o grupo as emprega para dar fôlego à faixa, criando pequenas pausas dramáticas que renovam a atenção do ouvinte antes que a estrutura se torne previsível. A atmosfera resultante é mais densa do que o título sugere: há algo de inquietação no tema do zumbido que dá nome à música, e o arranjo parece tratá-lo como uma lembrança que insiste em voltar.
Sustentando tudo isso, a cozinha formada por Johan Hallgren, no baixo, e Ted Nilsson, na bateria, entrega um alicerce firme e preciso. É um trabalho discreto no melhor sentido: não rouba a cena, mas permite que as mudanças de direção aconteçam sem que a música perca o chão. Essa solidez é o que autoriza a guitarra a arriscar e, ao mesmo tempo, mantém a faixa acessível para quem não é afeito a rótulos como progressivo.
Na frente de tudo está Cecilia Hallgren, que divide os vocais com os teclados. Sua presença é o fio que costura o conjunto, e já era apontada como o eixo das primeiras demos da banda, no fim dos anos 1990, quando o grupo se definia como uma mistura de rock, pop e prog. A voz tem clareza e personalidade suficientes para segurar a melodia mesmo quando o instrumental se complica, e é ela que transforma a complexidade do arranjo em canção.
Como ressalva construtiva, vale dizer que a mistura de tantas referências pede um ouvinte disposto a acompanhar as curvas da faixa, e talvez um refrão ainda mais marcante ampliasse o alcance da proposta. Ainda assim, o saldo é positivo. “Teenage Tinnitus” mostra uma banda que escreve pelo prazer de escrever, sem regras externas, e que encontrou, depois de quase três décadas, uma forma própria de equilibrar sofisticação e melodia. “Eyecontact” desperta curiosidade justamente por isso.


