Faixa que encerra o álbum “Entre Fuego y Sombras” resume a proposta direta do power trio chileno: dor real transformada em metal denso e sem filtros

“Toda Mi Ira” nasce de um incômodo bastante concreto: a raiva contra quem finge sentimentos para tirar proveito alheio. É esse tipo de matéria-prima, mais emocional do que abstrata, que sustenta a faixa de encerramento de “Entre Fuego y Sombras”, álbum do power trio chileno In Ad Hominem. A canção não tenta disfarçar sua origem. Ela é direta na proposta e na execução, e essa franqueza acaba sendo justamente o que dá liga entre a intenção declarada pela banda e o resultado sonoro entregue ao ouvinte.
Formado em 2023 na cidade litorânea de San Sebastián, na região de Valparaíso, o trio reúne Giordano Moglia (vocais principais e guitarras), Lucio Pérez (baixo e vocais) e Roberto Zúñiga (bateria), músicos que já haviam dividido palco na banda Krudo antes de decidirem seguir por um caminho novo. Essa bagagem prévia ajuda a explicar a segurança instrumental que “Toda Mi Ira” exibe: não é o som de uma banda testando limites pela primeira vez, mas de músicos que já sabem o que querem tirar de seus instrumentos e como fazer isso soar coeso dentro de um formato enxuto de trio.
Do ponto de vista sonoro, a faixa aposta em uma energia potente e direta que conversa com certa tradição do metal progressivo mais pesado, com ecos que remetem a Pain of Salvation em alguns momentos, especialmente na forma como a intensidade instrumental é usada para sustentar uma emoção específica, e não apenas para demonstrar técnica. O ritmo é firme e conduz a música com uma urgência que faz sentido dentro do tema abordado. Há uma coerência interessante entre forma e conteúdo aqui: a canção fala de frustração e raiva, e a instrumentação, pesada e insistente, funciona como veículo emocional para essa mensagem, sem parecer um exercício técnico desconectado da ideia central.
Essa coerência é o principal trunfo de “Toda Mi Ira” enquanto faixa de encerramento. Ela fecha um disco que a própria banda descreve como um trabalho que parte de feridas reais, injustiça, perda e falta de oportunidades, e a canção cumpre bem esse papel de síntese emocional, entregando uma sensação de raiva que soa genuína, não performática. É esse aspecto que sustenta a identidade da faixa: mais do que impressionar pela complexidade, ela busca comunicar algo específico, e na maior parte do tempo consegue.
Vale registrar que o percurso do In Ad Hominem até aqui ainda é recente. A composição das faixas começou no verão de 2023, mas o grupo só entrou em estúdio para gravar o álbum completo em novembro de 2025, após um período de trabalho discreto sobre as oito faixas que compõem “Entre Sangre y Fuego”, nome do disco de estreia que a banda promete lançar ainda neste ano. “Toda Mi Ira” funciona, portanto, como um cartão de visitas relevante para entender a trajetória em formação de um trio que parece ter clareza sobre o tipo de metal sério e emocional que quer fazer, mesmo estando ainda nos capítulos iniciais de sua história.


