Lars Eric Mattsson transforma ‘Genie in a Bottle’ em duelo de guitarra e voz bilíngue

Ao lado da cantora argentina Noe Reiri, guitarrista sueco reveste o hit de Christina Aguilera com riffs pesados e uma letra dividida entre inglês e espanhol

Lars Eric Mattsson não é exatamente um nome novo no hard rock e no metal instrumental. Guitarrista, compositor e produtor sueco com mais de três décadas de estrada e participação em dezenas de álbuns desde os anos 1980, ele chega agora a um território pouco frequentado por músicos de sua geração: o cancioneiro pop dos anos 2000. Em parceria com a cantora argentina Noe Reiri, ele assina uma releitura de “Genie in a Bottle”, sucesso de estreia de Christina Aguilera em 1999, rebatizada aqui de “Genie in a Bottle / Genio Atrapado” e cantada metade em inglês, metade em espanhol.

A escolha de transformar uma balada dance pop em uma faixa de guitarra pesada é, por si só, um exercício de risco calculado. Funciona melhor quando o arranjo não tenta apenas “distorcer” a base original, mas repensa sua estrutura rítmica, e é isso que parece acontecer aqui: a levada ganha mais peso e a melodia vocal precisa se adaptar a um clima mais tenso, sem perder a sensualidade discreta que tornou a canção original reconhecível. O resultado tem identidade própria, algo que nem sempre se consegue em covers de hard rock, que às vezes soam como mera transposição de andar mais lento para mais rápido.

A dupla vocal é o outro pilar do arranjo. Noe Reiri, cantora e professora de canto argentina, da região da Patagônia, com formação musical desde a infância, empresta ao projeto uma camada de espanhol que evita o efeito de tradução forçada, comum em versões bilíngues. A alternância entre os dois idiomas ao longo da faixa funciona como recurso narrativo, não como gimmick: cada trecho parece pertencer organicamente a quem o canta, e o contraste entre as duas vozes ajuda a sustentar a dinâmica de dueto sem que uma parte soe apenas como apêndice da outra.

No campo instrumental, é a guitarra de Mattsson que carrega a maior parte do peso dramático da versão, com um trabalho de base sólido, ainda que o material vocal e a estrutura de composição original limitem o espaço para grandes voos improvisacionais. O uso de uma guitarra de sete cordas, evidenciado no vídeo que acompanha a faixa, é um detalhe técnico que interessa particularmente a guitarristas: o registro em plano lateral, focado nas mãos e no braço do instrumento, funciona quase como material didático, mostrando com clareza como certos trechos foram tocados. É um formato mais associado a canais de ensino do que a videoclipes convencionais, e ganharia alcance se fosse adaptado para cortes verticais e mais curtos, pensados para redes como Instagram e TikTok, onde o público de guitarristas costuma consumir esse tipo de conteúdo.

No conjunto, “Genie in a Bottle / Genio Atrapado” é um trabalho de arranjo mais do que um cover no sentido estrito, e essa é sua principal virtude: em vez de apenas emprestar peso de guitarra a uma canção pop, a dupla propõe uma leitura que dialoga com o original sem depender dele para se sustentar. Não é uma reinvenção radical, tampouco uma novidade isenta de referências óbvias no universo do hard rock que reprocessa hits pop, mas cumpre o que se propõe com energia e articulação técnica acima da média, e a combinação de vozes em dois idiomas é o elemento que mais diferencia esta versão de exercícios semelhantes já vistos no gênero.

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