Monsters Are Human transforma as cicatrizes de Oliver Queen em metalcore melódico em “Origin”

Banda de Halifax, na Nova Escócia, usa a trajetória do Arqueiro Verde como metáfora para falar de trauma e reconstrução de identidade no single que antecipa o novo álbum

O Monsters Are Human, quinteto de metalcore de Halifax, na costa atlântica do Canadá, escolheu um ponto de partida pouco habitual para “Origin”: a vida emocional de Oliver Queen, o Arqueiro Verde dos quadrinhos. Em vez de narrar façanhas heroicas, a canção se interessa pelo que vem antes delas, as marcas deixadas por experiências extremas e o esforço de um sujeito para recuperar a própria identidade e encontrar propósito a partir da dor. É um recorte que dialoga diretamente com a postura da banda, que se declara defensora da conversa sobre saúde mental.

A personagem funciona bem como moldura porque Queen é, na mitologia da DC, alguém reconstruído pela adversidade. A banda aproveita essa história sem transformá-la em fantasia literal: o tema central é como cicatrizes emocionais moldam quem nos tornamos, algo que qualquer ouvinte pode projetar na própria experiência, conheça ou não os quadrinhos. A letra, acompanhada no lyric video, ajuda a seguir essa narrativa sem exigir repertório prévio.

Musicalmente, “Origin” se apoia no que o grupo descreve como a fusão entre a intensidade do metal moderno e a nostalgia dos sintetizadores dos anos 1980. As referências citadas, como Bad Omens, Dayseeker, Architects, Parkway Drive e Wage War, ajudam a situar o território: riffs pesados, refrões amplos e atmosferas cinematográficas. A formação reforça essa proposta, já que os teclados e pianos de Lex Coulstring ocupam um lugar próprio ao lado das guitarras de Avery Legacy, que também assume os vocais, e de Michael Cormier, com a cozinha formada por Dana Perry no baixo e Stan Holland na bateria.

O trabalho de guitarras é o ponto de maior destaque. Pesadas e precisas, elas ganham textura ao longo da faixa, sem que a agressividade atropele os detalhes. A voz acompanha esse cuidado: afinada, expressiva, com emoção suficiente para sustentar o peso narrativo da letra. O refrão é do tipo que permanece na memória depois que a música termina, resultado de uma melodia bem construída, e não apenas de repetição.

A mixagem também merece atenção. Em um gênero em que camadas de guitarras, synths, baixo e bateria costumam disputar espaço, aqui os elementos convivem de forma equilibrada, o que permite perceber tanto o impacto quanto a atmosfera. Para uma banda que fala em ser ao mesmo tempo sombria e imersiva, essa clareza é decisiva.

Como single de um álbum previsto para 31 de agosto, “Origin” cumpre bem o papel de cartão de visitas. Se há um desafio pela frente, é o de qualquer banda do subgênero, que convive com uma paleta sonora já bastante conhecida: o caminho para se destacar passa por reforçar traços próprios, e a mistura com o sintetizador oitentista e a abordagem temática são bons indícios nessa direção. O disco completo dirá se o Monsters Are Human consegue sustentar essa identidade em escala maior.

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