Em “Nuclear Goodbye”, banda espanhola troca o hard rock de trabalhos anteriores por uma sonoridade mais próxima de Sonata Arctica e Helloween, apostando em melodias fortes e atmosfera cinematográfica

A banda espanhola NURCRY apresenta em “Nuclear Goodbye” uma guinada perceptível de rota dentro do próprio catálogo. Se em lançamentos anteriores o grupo transitava por um terreno mais próximo do hard rock, a nova faixa se firma no território do power metal clássico, com todos os elementos que o subgênero costuma exigir: riffs velozes, refrões expansivos e uma narrativa que abraça o tom épico sem meias palavras. A canção narra a última despedida da humanidade em um cenário devastado pela guerra nuclear, tema que dialoga diretamente com a estética apocalíptica que o power metal cultiva desde os anos 1990.
O ponto mais consistente da faixa está na performance vocal. Há força e presença suficientes para sustentar a intensidade proposta pelo arranjo, algo que não é trivial num gênero em que o vocalista frequentemente precisa competir com guitarras duplas e teclados grandiosos sem perder o fôlego melódico. É justamente aí que a comparação com bandas como Sonata Arctica e Helloween se sustenta: não tanto pela originalidade das ideias, que seguem uma cartilha bem estabelecida, mas pela capacidade de construir ganchos que grudam com poucas escutas. Os refrões são pensados para serem cantados em coro, e cumprem essa função com eficiência.
A escolha de cantar em inglês, mirando o público europeu do metal, é coerente com a ambição do projeto e com o próprio código do power metal, gênero que historicamente construiu sua base de fãs através de festivais e circuitos que atravessam fronteiras linguísticas. A produção moderna ajuda a dar musculatura ao conjunto, evitando o som mais artesanal que às vezes acompanha bandas de cena ainda em consolidação. O resultado é uma faixa que soa maior do que a estrutura de uma banda relativamente jovem sugeriria, o que fala bem do cuidado técnico por trás da gravação.
Vale registrar também o vídeo que acompanha o lançamento, construído com uma atmosfera cinematográfica que reforça o clima apocalíptico da letra. É um complemento que amplia o impacto da música sem depender apenas do áudio para comunicar a ideia central da canção, um acerto de direção que nem sempre aparece em produções de bandas de nicho.
A trajetória da NURCRY ajuda a contextualizar esse momento. Fundada nos anos 1980 por Ángel Gutiérrez, a banda só ganhou corpo de fato a partir de 2021, quando o músico decidiu retomar o projeto e compor o material que resultaria no primeiro álbum, lançado em 2022. Dali em diante, o ritmo de trabalho foi intenso: um EP em maio de 2023, o segundo LP em setembro do mesmo ano e, logo depois, a turnê “Alma y Destino”, que passou por cidades como Madri, Múrcia, Vigo, Zaragoza e Sevilha. Agora, com a assinatura pela gravadora Art Gates Records e a preparação do terceiro álbum, intitulado “Renacer”, “Nuclear Goodbye” surge como uma espécie de cartão de visitas dessa nova fase, sinalizando para onde a banda pretende caminhar sonoramente. Resta ver se o restante do álbum sustenta esse mesmo padrão de refrões memoráveis e produção robusta, ou se a faixa funciona como um pico isolado dentro de um repertório ainda em formação.


