Com sofisticação progressiva e um reencontro histórico com Rafael Bittencourt, vocalista encerra arco conceitual de Jorge no Oriente Médio do século XVI sem ceder ao óbvio do power metal tradicional.

O encerramento de uma trilogia conceptual é, por definição, um exercício de equilíbrio de alta complexidade na música pesada. Exige do compositor não apenas a amarração de um arco narrativo, mas a capacidade de expandir a paleta sonora sem romper com os alicerces que justificaram a jornada. Com o lançamento de “MI’RAJ”, o vocalista e compositor Edu Falaschi cumpre essa exigência, consolidando o ciclo iniciado em Vera Cruz (2021) e estendido em Eldorado (2023). Onde os discos anteriores buscavam o impacto imediato da fundação identitária e da opulência orquestral, o novo registo propõe uma imersão mais sinuosa, ambientada no cenário denso do Oriente Médio do século XVI.
A transição geográfica da personagem Jorge — que agora enfrenta o despojamento quase absoluto e a busca pela transcendência sob a perseguição da Cruz de Nero — reflete-se diretamente na estrutura harmónica da obra. Nota-se um esforço consciente em distanciar o álbum do pastiche orientalista comum ao metal sinfónico. Em vez de utilizar as harmonias étnicas apenas como mero adorno estético, Falaschi incorpora as microtonalidades e as texturas da percussão de Marcus Cesar e das orquestrações de Pablo Greg à própria dinâmica das canções, aproximando o trabalho do rock progressivo clássico e do fusion contemporâneo.
Grande parte do frescor de “MI’RAJ” reside na oxigenação do processo criativo. Trata-se da primeira colaboração oficial do guitarrista Victor Franco na co-autoria de peças estruturais como “Watchers Of The Light”, “Wrath Into The War”, “Circle Of Dust” e a própria faixa-título. O músico evita a armadilha do virtuosismo estéril, oferecendo uma fundação de riffs pesados, de recorte mais tradicional, que ancoram as incursões mais sinfónicas do álbum. O mesmo pode ser dito sobre a estreia do baterista Jean Gardinalli, cuja abordagem entrega uma precisão cirúrgica sem sacrificar a intensidade orgânica necessária para sustentar andamentos complexos.
A faixa-título, “Mi’raj”, destaca-se como o centro de gravidade do álbum. A presença de Veronica Bordacchini (Fleshgod Apocalypse) estabelece um contraponto dramático interessante com as linhas vocais de Falaschi, que aqui explora registos médios mais maduros e dramáticos. No entanto, é em “Circle of Dust” que o álbum atinge um dos seus momentos mais sofisticados, amparado pela participação do vocalista norueguês Roy Khan (Conception, ex-Kamelot), cuja interpretação melancólica e contida dialoga perfeitamente com a atmosfera progressiva dos anos 80 proposta pela composição.
Para o público que acompanha a trajetória do metal ibero-americano, o ponto focal de discussão inevitavelmente os atrai em torno de “Intuição”. A faixa marca o primeiro trabalho conjunto de Edu Falaschi e Rafael Bittencourt (guitarrista e fundador do Angra) desde o álbum Aqua, de 2009. Mais do que um mero golpe de nostalgia, o solo de Bittencourt na canção entrega o lirismo e a assinatura melódica que caracterizaram a era de ouro da parceria entre ambos.
Adicionalmente, “Intuição” cumpre uma função histórica na discografia a solo de Falaschi ao apresentar-se como a sua primeira composição original cantada em português em cerca de 24 anos, quebrando um hiato que remontava ao tema “Caça e Caçador” (do EP Hunters And Prey, de 2002). A escolha idiomática confere à faixa uma vulnerabilidade que serve muito bem à proposta conceptual do álbum, ilustrando o momento de maior introspeção e perda da personagem principal antes da sua pretendida ascensão interior.
A nível de engenharia de som, o álbum beneficia da manutenção da equipa técnica habitual. A produção de Falaschi em parceria com Thiago Bianchi (que operou as gravações no Fusão Estúdio, em São Paulo) preserva a robustez dos instrumentos, enquanto a mixagem e masterização de Dennis Ward, na Alemanha, garante que a imensa massa sonora de cordas, sopros, coros e guitarras não resulte num bloco de som comprimido. O saxofone de Wagner Barbosa em “Unchained” e as intervenções de piano de Thiago Mineiro e Junior Carelli trazem dinâmicas que arejam o disco, impedindo a exaustão auditiva comum a álbuns de longa duração.
Ao celebrar 35 anos de carreira, Edu Falaschi entrega com “MI’RAJ” um trabalho que se recusa a operar no piloto automático do género. Ao equilibrar a nostalgia dos reencontros com a crueza de uma nova equipa de músicos, o compositor encerra o seu tríptico histórico com a maturidade de quem compreendeu que o peso do heavy metal reside tanto no silêncio e na melodia quanto na velocidade dos bumbos duplos.


