Projeto solo de Brasília cruza doom, sludge e blackgaze em single cantado em português, com vocais que alternam técnica e carga emocional

Há projetos que nascem de uma necessidade pessoal e acabam encontrando, no isolamento da criação, uma identidade bastante clara. É o caso do Oneance, formado em Brasília em 2016 e conduzido por A., responsável por compor, executar, mixar e masterizar todo o material. “Monstros Entre Nós”, o single mais recente, mostra o resultado de um processo em que a mesma mão cuida de cada etapa, e em que a coesão final parece menos um acaso do que uma escolha consciente.
O ponto de partida está em uma mistura de referências que o próprio projeto assume: shoegaze, post-metal, sludge e black metal. Na faixa, esses elementos se organizam entre o doom metal, que oferece o andamento arrastado e a densidade das guitarras, e o blackgaze, que injeta melodias envoltas em reverberação e uma sensação de amplitude. O contraste entre esses dois polos dá à música um movimento constante, em que a opressão e a contemplação se alternam sem que uma anule a outra.
A estrutura da canção é um dos seus pontos fortes. Em vez de repetir uma fórmula, a faixa evolui por camadas e muda de dinâmica ao longo do percurso, o que sustenta o interesse do ouvinte e reforça o caráter narrativo da composição. Há momentos em que o peso lembra a atmosfera sombria de bandas como o Jinjer, sobretudo na forma como a intensidade é construída e liberada, mas o resultado segue com personalidade própria, mais interessado em ambiência do que em virtuosismo gratuito.
Os vocais são o eixo emocional do trabalho. A transição entre registros, do gutural ao timbre mais limpo e melódico, exige controle técnico, e aqui ela aparece com precisão e sem perder a entrega interpretativa. Essa variação funciona como um segundo instrumento, acompanhando as mudanças de clima e ajudando a delimitar as seções da música. A escolha pelo português é outro acerto: em um gênero em que o inglês costuma ser regra, cantar no idioma de casa confere à mensagem uma proximidade e uma contundência que a tradução dificilmente alcançaria, e combina bem com o título, que sugere a ameaça presente no cotidiano mais do que em figuras distantes.
A produção, assinada pelo próprio artista, é precisa e bem equilibrada. As guitarras têm corpo sem encobrir os demais elementos, a bateria sustenta o peso sem engessar a faixa, e as texturas atmosféricas ocupam o espaço com critério. Trabalhos autoproduzidos de música pesada costumam sofrer com a falta de clareza na mixagem, o que não é o caso aqui. Como ressalva construtiva, o desafio de um projeto solo com esse grau de ambição é manter o frescor ao longo de um repertório maior, algo que as próximas liberações do Oneance poderão responder.
No conjunto, “Monstros Entre Nós” apresenta um artista que sabe o que quer e domina as ferramentas para chegar lá. Ao unir a dureza do doom e do sludge à imersão do blackgaze, com texto em português e interpretação segura, o Oneance reforça seu lugar em uma cena brasileira de metal alternativo que vem se mostrando cada vez mais plural.


