Lançada em 2003, a faixa da banda de Tallahassee reencontra o público numa nova geração e mostra por que o peso com groove ainda funciona

Há canções que parecem ter ficado esperando o momento certo. “Again and Again”, do Presence, saiu em 2003 no álbum Rise, estreia da banda de Tallahassee, na Flórida, em um período em que o nu-metal ainda dominava o rock pesado, mas já dava sinais de saturação. Mais de duas décadas depois, a música voltou a circular com força, impulsionada pelo TikTok, onde, segundo a banda, reúne mais de 93 mil posts e cerca de 53 milhões de visualizações, além de ter levado o grupo a passar de 1 milhão de streams no Spotify em 28 dias.
Os números ajudam a contar a história, mas o que explica o retorno está na própria faixa. O que se ouve é uma construção que parte da cozinha: baixo firme, bateria de ataque largo e um groove pesado que sustenta toda a canção. A atmosfera é densa sem ser sufocante, e o arranjo deixa espaço para que a guitarra trabalhe riffs diretos, sem exibicionismo, enquanto a base rítmica conduz a tensão. Não por acaso, a própria biografia do grupo afirma que o som começa pela seção rítmica, e a audição confirma essa lógica.
A voz é o outro eixo da música. Jay Slim canta com potência crua, alternando melodia e agressividade de um modo que remete ao hard rock com sotaque de hip-hop que o grupo reivindica como assinatura. A comparação com Sevendust, pela intensidade, e com Deftones, pelo acabamento melódico, é razoável como ponto de referência, mas a faixa não soa como cópia de nenhum dos dois. Tem a energia da era de ouro do estilo, com refrão que gruda e uma interpretação que parece ter sido pensada para ser sentida mais do que analisada.
A trajetória da banda também ajuda a situar o fenômeno. O Presence começou em 1996, quando o baixista D.J. Stange e o vocalista Jay Slim passaram a compor juntos, logo reforçados pelo baterista Nick Wells e pelo guitarrista Dan Fulmer. Antes de Rise, lançaram de forma independente Divine (1999) e When The Smoke Clears (2001), construindo uma base regional na estrada. A passagem pela Curb Records veio depois, e o álbum de 2003 é o produto desse amadurecimento, não de um golpe de sorte. Isso torna o ressurgimento atual menos uma curiosidade da internet e mais uma redescoberta de um trabalho que já tinha consistência.
Há, claro, o contexto geracional. Ouvintes que não viveram o auge do nu-metal encontram na faixa uma sonoridade que o presente raramente oferece: guitarras graves, ritmo físico e emoção sem filtro. O algoritmo acelera esse encontro, mas não o fabrica. Se há um desafio para o grupo daqui em diante, é transformar a atenção súbita em continuidade, apresentando ao novo público o restante do catálogo e, quem sabe, material inédito que dialogue com essa audiência sem abrir mão da identidade rítmica que sempre os definiu.
Por ora, “Again and Again” cumpre o papel de lembrar que o peso com groove não envelhece tanto quanto se imagina. O Presence, que cresceu longe dos holofotes, vive agora um segundo capítulo que nasce de uma música que resistiu ao tempo.


