Salava volta após seis anos com “Devil’s Crop”, fuzz de doom e refrão de heavy metal clássico

Parceria com os irmãos Janne e Tommi Saksa, do Sancnity, dá corpo ao single de retorno da banda finlandesa, lançado pela Inverse Records

Quando Jukka Salo e Sami Suominen lançaram “Remorse”, em plena paralisia da pandemia, em 2020, o Salava nasceu como válvula de escape para dois músicos sem palco e sem calendário. A faixa circulou em veículos de música underground dos Estados Unidos, da Espanha e da Turquia, e depois veio o silêncio. Seis anos mais tarde, a banda de Helsinque e Hämeenlinna reaparece com “Devil’s Crop”, single previsto para 27 de agosto de 2026 pela Inverse Records, já em formação de quarteto.

O retorno tem uma peculiaridade de origem. Segundo o próprio guitarrista, a canção poderia ter ficado esquecida entre os vários projetos paralelos da dupla, entre eles o Boneyard Lily, mas era boa demais para isso. A ficha de Suominen e Salo ajuda a situar a procedência do som: os dois já haviam tocado juntos no Saarnastuoli e no Planeetta 9, este último autor de “Luinen syli”, disco que com o tempo ganhou status de pequeno clássico escondido do metal alternativo finlandês.

O reforço vem de Hämeenlinna, cidade que também é berço do Sancnity, grupo apontado como pioneiro de um metal alternativo de influência death metal no país ainda nos anos 1990. Janne Saksa assume a guitarra solo e Tommi Saksa, a bateria. A escolha faz sentido no contexto: a música dialoga com a explosão de heavy metal que tomou a cidade e a Finlândia no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, sem tentar reproduzir o som da época, mas lembrando o tipo de peso que o mainstream andou deixando de lado.

Musicalmente, “Devil’s Crop” combina duas energias que raramente dividem o mesmo espaço com naturalidade. Por baixo, há um fuzz de inclinação doom, arrastado e denso, herança declarada do stoner e do doom que Suominen põe nos riffs. Por cima, aparece um refrão melódico, daqueles que se cantarolam sem constrangimento, sustentado pela extensão vocal incomum de Salo. Em vários momentos, o poder melódico e a condução dos vocais evocam a tradição do power e do heavy metal alemão e finlandês, na linha de Gamma Ray e Helloween, com toques de Sonata Arctica, ainda que o chão sonoro seja bem mais pesado e sujo do que o dessas referências.

O trecho mais marcante está no meio da canção. A construção progressiva da faixa abre espaço para uma entrada inesperada de vocais guturais, que injeta ferocidade e quebra a expectativa criada pelo refrão. A virada funciona porque não soa como enfeite: reorganiza a dinâmica e reforça o contraste entre melodia e agressividade que dá identidade ao single. A guitarra solo de Janne Saksa e a bateria de Tommi Saksa completam a engrenagem com firmeza.

Como carta de retorno, “Devil’s Crop” é segura e ambiciosa na medida certa. O risco de um som que flerta com tantas gavetas do heavy é o de parecer colcha de retalhos, mas a banda mantém o eixo no riff e na voz. Resta saber se o Salava transformará esse reencontro em continuidade, já que o single deixa a impressão de uma banda com repertório e entrosamento para ir além de um episódio isolado.

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