Sonata Arctica transforma os 30 anos em um coro coletivo na Audio

Com Tony Kakko poupando a voz após problemas de saúde, finlandeses apostaram nos clássicos e encontraram em São Paulo uma plateia disposta a cantar por eles

Pouco mais de um ano depois de uma passagem pelo Bangers Open Air, o Sonata Arctica voltou a São Paulo com algo que nenhum festival oferece: uma noite inteira para celebrar três décadas de carreira. A apresentação aconteceu no sábado, 3, na Audio, como parte da ‘30th Anniversary Tour’, diante de uma casa cheia, quase lotada. Os veteranos brasileiros do Noturnall abriram a noite com um set curto e físico, em que Thiago Bianchi chegou a se jogar sobre o público, mostrando a grande fase que vive o vocalista.

O dado que pairava sobre a noite, porém, não estava no setlist. Kakko havia enfrentado problemas de saúde dias antes, o que levou ao cancelamento do show de Montevidéu, e cada verso em São Paulo virou também um teste de resistência. Em alguns momentos ele optou por cantar sentado, e o esforço ficou visível em certos trechos. A solução veio da própria pista: já na abertura com “I Have a Right”, cerca de 3 mil pessoas cantaram mais alto que o vocalista. A escolha da faixa como abertura foi certeira.

O repertório expôs a principal contradição da turnê. A banda havia prometido um percurso por diferentes fases, incluindo faixas menos executadas e músicas ausentes dos setlists há anos, mas o que se ouviu foi essencialmente o roteiro previsível de grandes sucessos. Nas palavras de uma das críticas publicadas, o setlist foi exatamente o que todos esperavam. Dentro desse limite, a sequência funcionou: “Black Sheep”, “Paid in Full” e “Last Drop Falls” (esta com direito a pedido de casamento na pista), e depois de “Tallulah” Kakko sugeriu acelerar o ritmo e a banda emendou “8th Commandment”, resgatando o power metal veloz dos primeiros discos. “White Pearl, Black Oceans…” foi o raro momento de ambição composicional numa noite dominada por refrões.

É justamente nas baladas e nos hinos que o show encontra seu sentido. “Letter to Dana”, “Shy” e “FullMoon”, a mais adorada e cantada da noite, já não pertencem apenas a uma banda de Kemi: viraram trilha de adolescências inteiras de quem lotou a casa. O bis trouxe “The Last Amazing Grays” e “Don’t Say a Word”, com “Vodka” fechando a noite em tom de brincadeira. Na parte técnica, pontualidade e qualidade de som estiveram entre os acertos destacados, e a formação, estável há anos, sustentou o vocalista sem sobressaltos.

O saldo é o de uma excepcional celebração. Não foi a noite de um Kakko em plena forma, nem a de um repertório ousado, mas talvez tenha sido algo mais revelador: a prova de que, depois de 30 anos, o Sonata Arctica construiu canções capazes de se sustentar mesmo quando a voz que as criou precisa dividir o peso.

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