Banda americana ajudou a moldar o rock alternativo dos anos 1990, influenciou gerações do indie e segue ativa após mais de três décadas de carreira. O grupo se apresenta no Rio de Janeiro e em São Paulo nos dias 30 e 31 de maio.

Texto por Thais Ribeiro
Em um cenário musical cada vez mais dominado por reuniões nostálgicas e turnês comemorativas, o retorno do Superchunk ao Brasil chama atenção por um outro motivo também: a banda nunca parou. Formado em 1989, em Chapel Hill, na Carolina do Norte, o grupo atravessou mais de 35 anos mantendo a mesma urgência sonora, a independência artística e o espírito DIY (Do It Yourself, em português “faça você mesmo”) que ajudaram a moldar o indie rock dos anos 1990. Agora, o quarteto volta ao país após 15 anos para uma apresentação no Rio de Janeiro no bar Agyto dia 30/05, e em São Paulo no Cine Joia dia 31/05.
Muito antes de o termo “indie” virar algoritmo e categoria de streaming, o Superchunk já fazia barulho no underground norte-americano com guitarras aceleradas, melodias explosivas e letras que misturavam ironia e emoção crua. Ao lado de bandas como Pavement, Dinosaur Jr., Husker Dü, Sebadoh, entre outros nomes, o grupo integra uma geração que redefiniu o rock alternativo fora do circuito das grandes gravadoras. Hoje é muito estabelecido e convencional a um artista ser independente, mas para a época era uma dinâmica culturalmente nova e disruptiva dentro do circuito artístico-musical.
A trajetória do Superchunk, no entanto, vai além da própria discografia. Em paralelo à banda, Mac McCaughan e Laura Ballance criaram a Merge Records, selo que começou lançando compactos da cena local de Chapel Hill e acabou se transformando em uma das gravadoras independentes mais importantes do gênero. No extenso catálogo da Merge estão artistas como Seaweed, Arcade Fire, Teenage Funclub, Buzzcocks, Camera Obscura, ..And You Will Know Us By The Trail Of Dead.
Enquanto muitas bandas do explosivo cenário alternativo dos anos 1990 migraram para majors ou desapareceram com o tempo, o Superchunk permaneceu fiel ao circuito independente, uma decisão que ajudou a consolidar sua reputação como um dos pilares do indie americano. Essa postura também contribuiu para a influência duradoura do grupo sobre diferentes gerações do rock alternativo dos anos 90 e 2000.
Parte dessa relevância está registrada em discos que se tornaram fundamentais para entender o período. No Pocky for Kitty (1991), produzido por Steve Albini, apresentou uma banda mais rápida e abrasiva. Já Foolish (1994), frequentemente apontado como o grande clássico do grupo, trouxe um lado mais melancólico e emocional sem abandonar a energia característica do Superchunk. Um ano depois, Here’s Where the Strings Come In consolidaria o equilíbrio entre urgência punk e melodia pegajosa que virou marca registrada da banda.
Mesmo depois de décadas de estrada, o Superchunk nunca assumiu uma posição confortável de “banda legado”. Nos últimos anos, o grupo continuou lançando material inédito e dialogando com o presente. O disco mais recente, Songs in the Key of Yikes (2025), foi recebido pela crítica como grande validação da vitalidade da banda, aproximando a sonoridade atual da intensidade dos trabalhos lançados nos anos 1990.
O álbum também marca uma nova fase na formação. Após a saída amigável do baterista Jon Wurster, integrante histórico do grupo, a musicista Laura King assumiu oficialmente as baquetas.
Para o público brasileiro, o retorno do Superchunk representa mais do que um reencontro nostálgico, é também a oportunidade de ver ao vivo uma banda que simboliza um dos últimos grandes movimentos culturais do rock antes da transformação digital e comportamental da indústria da musica. A apresentação deve reunir músicas de diferentes momentos da carreira, atravessando clássicos como “Slack Motherfucker”, “Precision Auto”, “Driveway to Driveway” e “Digging for Something”. Mais do que revisitar o passado, a banda chega ao Brasil reafirmando o legado de um grupo que atravessou gerações sem abandonar a própria essência e sem perder a capacidade de soar atual.


