Em “Reap The Fruits Of Famine”, faixa que inicia “Come Day of Reckoning”, a banda norueguesa de doom metal épico mostra peso, melodia e identidade já nos primeiros minutos

A banda norueguesa Zebulon, formada por cinco integrantes de Rogaland, escolheu “Reap The Fruits Of Famine” como cartão de visitas do seu álbum de estreia, “Come Day of Reckoning”, lançado em novembro de 2025. A opção faz sentido: é uma faixa de abertura no sentido pleno do termo, construída para estabelecer atmosfera antes de qualquer outra coisa. Logo nos primeiros compassos, o grupo apresenta uma introdução ampla e pesada, que ocupa espaço sem pressa, sinalizando ao ouvinte que o que vem a seguir pertence a um universo sombrio e de proporções quase litúrgicas.
O doom metal épico é um subgênero que vive de contrastes bem calibrados: precisa ser lento o suficiente para transmitir peso, mas não pode se acomodar na monotonia. Zebulon parece compreender essa equação. Os riffs são robustos, construídos em camadas que reforçam a sensação de massa sonora, enquanto os vocais assumem um tom grandioso, quase teatral, que dialoga diretamente com a tradição do gênero sem soar como imitação vazia. As melodias, por sua vez, cumprem um papel importante: dão à música uma identidade reconhecível, evitando que ela se perca na escala épica que o estilo costuma exigir.
Um dos pontos mais interessantes da faixa é o equilíbrio entre a vastidão característica do doom e a presença de ganchos que sustentam a atenção ao longo da duração da música. Não é incomum que composições desse subgênero sacrifiquem a dinâmica interna em nome da atmosfera, resultando em trechos que se arrastam sem propósito claro. “Reap The Fruits Of Famine” evita essa armadilha ao inserir movimento suficiente dentro da estrutura pesada, criando variações que mantêm o interesse sem abrir mão do clima denso que dá nome ao gênero.
O resultado é uma canção que transmite uma sensação de mundo em colapso, algo coerente com o título do álbum, “Come Day of Reckoning”, e com a proposta declarada da banda de funcionar como uma espécie de trilha sonora para o fim dos dias. Há uma coerência conceitual perceptível entre a música e a identidade que o grupo constrói em torno de si, o que fortalece a leitura de que a faixa não é apenas tecnicamente bem executada, mas também alinhada a um propósito estético mais amplo.
Vale registrar ainda que Zebulon mantém atividade regular de apresentações ao vivo, tanto na Noruega quanto em outros pontos da Europa e no Reino Unido. Composições como essa, com dinâmica de tensão e alívio bem marcada, tendem a funcionar bem nesse contexto, já que oferecem momentos de impacto que se traduzem naturalmente em experiência de palco. “Reap The Fruits Of Famine” cumpre, assim, a função de uma abertura de álbum: apresenta o vocabulário sonoro da banda, situa o ouvinte no universo temático proposto e indica, com clareza, o tipo de jornada que “Come Day of Reckoning” se propõe a oferecer.


