No novo single, a banda norueguesa equilibra riffs esmagadores e estrutura cinematográfica para falar de repetição, sofrimento e transformação

A Octohawk chega ao terceiro capítulo de sua trajetória com “Samsara”, faixa que reforça o caminho traçado desde o álbum de estreia “Animist” (2021) e consolidado em “Determinist” (2023). A banda, formada por músicos com passagem por projetos como Mammüth, Ninth Circle, Cassidy e Dead Sheriff, usa essa bagagem para sustentar um som que não se contenta em ser apenas pesado: há um cuidado evidente em como a canção se movimenta, alternando blocos de peso hipnótico com aberturas melódicas que respiram antes de fechar o punho novamente.
O conceito por trás de “Samsara”, o ciclo budista de destruição e renascimento, funciona como eixo estrutural da composição, não apenas como referência temática solta. A música é construída em camadas de guitarra densas, que se acumulam e se dissolvem em momentos de tensão, enquanto o andamento varia o suficiente para evitar a monotonia comum a faixas de sludge mais lineares. Essa variação rítmica é um dos pontos mais fortes do material: a canção parece respirar em ciclos, repetindo padrões só para quebrá-los logo em seguida, o que dá um senso de progressão real dentro de uma estrutura que poderia facilmente cair na repetição vazia.
A base rítmica é o que sustenta essa arquitetura. O baixo e a guitarra base entregam um peso constante, quase físico, que ancora a faixa do início ao fim sem parecer cansativo. A bateria merece destaque à parte: a condução é precisa e cheia de energia, alternando entre pontos de contenção e explosões que empurram a música para frente nos momentos certos. É esse trabalho de percussão que evita que os trechos mais atmosféricos percam impulso, funcionando como elo entre a pesadume e as passagens mais abertas da composição.
A voz também cumpre um papel central. Há presença suficiente para dar peso emocional às partes mais lentas e impacto nas seções mais agressivas, o que ajuda a vender a narrativa de conflito interno e decadência espiritual proposta pela banda. As comparações com nomes como The Ocean, Cult of Luna e Mastodon fazem sentido no espectro sonoro (riffs pesados, dinâmica progressiva, atmosfera cinematográfica), embora a Octohawk já demonstre identidade própria o suficiente para não depender dessas referências como muleta. O que diferencia a faixa dentro desse universo é justamente a forma como a melodia progressiva se abre em meio ao peso, criando momentos de respiro que soam pensados, não apenas contrastantes por efeito.
Vindo de uma banda que construiu presença consistente no circuito ao vivo norueguês mesmo tendo nascido em plena pandemia, e que agora segue sob o selo The Norwegian Sound, “Samsara” indica continuidade mais do que reinvenção. É um single que cumpre o que se propõe: uma experiência imersiva, bem construída tecnicamente, com identidade reconhecível dentro do sludge progressivo nórdico. Falta, talvez, um elemento de risco maior que distancie a faixa de seus pares diretos, mas como exercício de forma e execução, o resultado é sólido e mostra uma banda que sabe exatamente o que quer entregar.


