Seventy Times Seven retorna após quase uma década com ’17º Andar’, single que transforma dor coletiva em metalcore

Banda pernambucana usa experiência real de suicídio e relatos de fãs para construir uma faixa densa, emocional e consciente sobre sofrimento psíquico.

Recife, capital dos tubarões, volta a ter voz ativa no metalcore nacional. Formada em 2009 e afastada dos palcos e estúdios desde cerca de 2016, a Seventy Times Seven reaparece com “17º Andar”, single lançado em 13 de julho, Dia Mundial do Rock, pelo selo Se Vira Music. O trabalho marca não apenas o retorno de uma das bandas mais consistentes da cena cristã independente do Nordeste, mas também uma abordagem madura e sensível a um tema de extrema relevância: o sofrimento psicológico e a prevenção ao suicídio.

A canção surge de um episódio marcante na vida do vocalista Felipe Luiz. A esposa dele presenciou uma jovem se jogar do 17º andar de um prédio. A imagem não saiu da cabeça de Felipe, que transformou o impacto em letra e melodia. Em vez de ficar apenas na experiência pessoal, a banda abriu convocação nas redes sociais para receber relatos de pessoas que vivenciaram ideação suicida, tentativas ou profundo sofrimento emocional. Mais de 20 depoimentos chegaram, todos com termo de consentimento. Da seleção cuidadosa, apenas um trecho em áudio, de Samuel, 26 anos, foi incorporado à faixa. Outro texto poético integra a campanha de divulgação.

O resultado sonoro justifica o retorno. A melodia principal carrega peso emocional genuíno e se sustenta mesmo nos momentos mais pesados. Os vocais de Felipe Luiz transitam com intensidade entre partes limpas carregadas de sentimento e os gritos típicos do metalcore, entregando credibilidade ao tema. O instrumental, construído por Leandro Mateus e Augusto Monteiro nas guitarras, Rodolpho Malafaia no baixo e o Thiago Soares na bateria, apresenta riffs marcantes, quebras bem resolvidas e dinâmicas que alternam agressividade e respiro melódico. O arranjo soa coeso, com transições naturais que evitam o previsível e dão impacto real à estrutura da música.

Quem acompanha a trajetória da Seventy Times Seven reconhece aqui a continuidade de uma proposta clara: heavy music como veículo para falar de lutas reais, fé, dor e redenção, sem cair em didatismo simplista. Influenciada por metalcore, post-hardcore e screamo, a banda sempre equilibrou peso sonoro com honestidade lírica. “17º Andar” reforça essa identidade, agora com maturidade adicional adquirida no hiato, período marcado por faculdade, casamento, e também pelo desgaste da polarização política que fragmentou parte da cena pernambucana de metal e hardcore.

O timing do lançamento dialoga com dados preocupantes. Em setembro de 2025, levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), baseado em informações do Ministério da Saúde, apontou aumento de casos de autolesão e tentativas de suicídio entre adolescentes no Brasil. Especialistas reforçam que o suicídio é fruto de um processo de sofrimento psíquico e destacam a importância de observar mudanças de comportamento e oferecer escuta qualificada.

Ao optar por focar em experiências de enfrentamento e recuperação, e não em descrições de métodos, a Seventy Times Seven demonstra responsabilidade. A faixa não promete soluções fáceis, mas registra a dor, nomeia o abismo e, a seu modo, aponta para a possibilidade de continuidade. É exatamente nisso que reside sua força: na capacidade de soar ao mesmo tempo agressiva e profundamente humana.

Com produção de Hammer Studio e arte visual assinada por Leandro Mateus e Lucas Neri, “17º Andar” chega como declaração de que a banda, após o longo silêncio, escolheu voltar falando do que realmente importa. Para quem acompanha a cena independente brasileira, o single serve como lembrete de que o metalcore pernambucano ainda tem muito a dizer, e, sobretudo, de que certas feridas precisam ser ouvidas antes que se tornem irreversíveis.

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