Sienna Scott encontra a voz de uma rainha guerreira sem usar uma única palavra em “Princess of Ares”

Faixa do álbum de estreia “Dominion” aposta em riff pesado e trabalho de baixo sólido para construir, apenas com instrumentos, um retrato narrativo de poder e sacrifício

Guitarrista e compositora, Sienna Scott passou anos construindo em silêncio um repertório que evita o caminho mais óbvio do instrumental de guitarra, o da exibição técnica pura, para investir em algo mais raro: contar histórias sem letra. “Princess of Ares”, faixa de seu álbum de estreia “Dominion” (lançado em 1º de agosto de 2026), é um exemplo direto desse projeto. A música descreve, por meios puramente sonoros, uma rainha guerreira temida que habita um mundo distópico marcado por escuridão e sacrifício, e o resultado é uma peça que se sustenta menos pela quantidade de notas por segundo e mais pela clareza de sua progressão dramática.

O riff principal cumpre um papel estrutural evidente: ele é apresentado com peso suficiente para estabelecer o clima sombrio da faixa e retorna ao longo da composição como uma espécie de tema condutor, algo próximo de um leitmotiv que ancora o ouvinte mesmo quando a música se desloca para outras texturas. O baixo merece destaque à parte. Em vez de simplesmente reforçar a guitarra, ele constrói uma base rítmica e harmônica que dá densidade à faixa, contribuindo para a sensação de peso físico que a narrativa exige. É esse alicerce que permite à guitarra de Scott se movimentar com liberdade sem que a música perca coesão.

O aspecto mais interessante de “Princess of Ares”, no entanto, está na forma como ela organiza o tempo. A faixa não se apoia em uma estrutura tradicional de estrofe e refrão, e sim em blocos que funcionam como cenas: momentos de tensão crescente, picos de confronto e passagens mais espaçadas que soam quase como respiro antes do próximo embate. Essa lógica cinematográfica é coerente com a proposta declarada de Scott em “Dominion”, álbum que não segue uma narrativa única, mas costura histórias de heróis, tiranos, máquinas e sobreviventes dentro de um mesmo universo maior. Dentro desse contexto, a Princesa de Ares funciona como uma figura arquetípica, e a música consegue comunicar sua dimensão mítica sem recorrer a artifícios óbvios como samples de voz ou efeitos narrativos explícitos.

Vale notar que esse tipo de composição instrumental carrega um risco inerente: sem letra para ancorar a interpretação, a narrativa depende inteiramente de escolhas de arranjo, dinâmica e melodia para se fazer entender, e nem sempre esse equilíbrio é simples de atingir. Em “Princess of Ares”, a leitura da história pretendida (a rainha, o desafio, o mundo hostil) chega ao ouvinte de forma relativamente direta, o que indica um domínio maduro da linguagem instrumental por parte de Scott, mais preocupada em guiar uma experiência do que em impressionar tecnicamente.

Inserida no conjunto de “Dominion”, a faixa cumpre também uma função de apresentação: ela é o tipo de música capaz de situar rapidamente um ouvinte novo dentro do universo conceitual do álbum, que discute o avanço de inteligências artificiais e o lugar incerto da humanidade nesse processo. Ainda que “Princess of Ares” trate de um recorte mítico e não diretamente tecnológico dessa narrativa maior, ela reforça o mesmo interesse central de Scott: usar o rock pesado guiado por guitarra, com pitadas progressivas, como ferramenta de construção de mundos. É um trabalho que privilegia coerência de conceito e execução instrumental sólida, características que devem interessar tanto a públicos de metal e rock pesado quanto a ouvintes atraídos por música instrumental de caráter narrativo.

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