Stanley Smitch encontra elegância pop no cruzamento entre Haiti e França

Em “Hannah / Anna / Mets Délicieux”, ex-backing vocal de Mika e McFly mostra controle vocal apurado e uma seção rítmica que sustenta o groove da faixa

Antes de assinar seu nome como artista solo, Stanley Smitch construiu currículo nos bastidores de grandes palcos. Formado em teatro musical em Paris em 2013, ele emprestou a voz como backing vocal para nomes como Mika, Big Flo et Oli, McFly e Carlito, experiência que ajuda a explicar a segurança técnica com que conduz “Hannah / Anna / Mets Délicieux”. Nascido no Haiti e radicado na França, Smitch soma à trajetória artística uma rotina pouco comum no meio musical: trabalha como enfermeiro noturno e reserva o dia para a música, equilíbrio que sustenta desde 2016, quando decidiu levar a carreira artística a sério.

A faixa evidencia justamente o que anos de trabalho coletivo costumam apurar em um cantor, o senso de medida. Smitch canta com controle de afinação preciso e evita o excesso, optando por uma interpretação contida que valoriza a melodia sem recorrer a artifícios vocais chamativos. Essa contenção não empobrece a entrega, pelo contrário, cria espaço para que os detalhes da produção apareçam com clareza. É uma escolha interpretativa que remete à formação em teatro musical, onde a dicção e a intenção da frase importam tanto quanto a potência.

A seção rítmica é outro ponto que sustenta a canção. O baixo e a bateria trabalham em conjunto para dar à música uma pulsação constante, quase física, que aproxima o resultado do R&B contemporâneo sem abrir mão de uma sensibilidade pop. Esse groove não é apenas um pano de fundo: ele dita a respiração da faixa e permite que os vocais de Smitch se movimentem com naturalidade sobre a base, num diálogo que revela arranjo pensado com cuidado, não improvisado.

Do ponto de vista de identidade sonora, “Hannah / Anna / Mets Délicieux” carrega um traço estético que remete à cena pop francesa contemporânea, tanto na condução melódica quanto na forma como a produção equilibra elegância e groove sem soar excessiva. É um pop e R&B bem construído, que evita fórmulas fáceis e aposta em sofisticação discreta, características que dialogam com o histórico de Smitch como intérprete a serviço de outros artistas antes de ocupar o centro do palco.

O resultado é uma canção com personalidade definida, que revela domínio técnico sem parecer um exercício de estilo. Smitch consegue transformar bagagem de bastidores em material próprio, e a faixa funciona como um retrato consistente de um artista que, entre o Haiti e a França, entre o hospital e o estúdio, ainda constrói seu caminho como cantor e, segundo pretende, também como ator.

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